A Música das Nuvens — Arlene Diniz
Uma história linda sobre fé, família, propósito e amadurecimento, com personagens que parecem reais e um romance puro e delicado. Só queria que Alissa tivesse percebido um pouco antes que Theo era perfeito.

Nota: 9,5/10
Eu terminei A Música das Nuvens chorando de emoção e com aquela sensação maravilhosa de ter lido exatamente o tipo de história que eu espero encontrar quando procuro uma ficção cristã.
Não porque o livro seja perfeito. Alissa me deu nervoso em vários momentos, principalmente no começo, quando ainda estava presa àquela relação com Eric — um personagem que eu simplesmente não suportei — e também porque ela aceitava ser tratada como capacho dentro da própria família por muito tempo. Teve hora em que eu queria sacudir a menina e dizer: “reage, pelo amor de Deus”.
Mas, ao mesmo tempo, acho que esse desconforto faz parte do que tornou a jornada dela tão bonita para mim.
No começo, quem realmente ganhou meu coração foi Samm, o irmão mais novo de Alissa. A relação dos dois me tocou muito porque me lembrou da minha própria relação com meu irmão. Durante uma fase da vida, eu precisei cuidar dele de uma forma muito próxima, quase maternal, então foi impossível não me enxergar em Alissa nesse sentido. E acho que foi justamente por causa de Samm que comecei a olhar para ela com mais carinho.
Com o tempo, a gente vai entendendo melhor por que Alissa é como é. Por que ela é tão defensiva, tão insegura, tão pouco ambiciosa, por que aceita tanto dos outros e por que parece sempre pronta para se proteger. E eu gosto muito quando uma personagem não muda da noite para o dia, mas vai amadurecendo aos poucos. Alissa erra bastante, mas a trajetória dela faz sentido. Ela é uma adolescente real, aprendendo a se enxergar como Deus a enxerga e, principalmente, aprendendo a querer fazer a vontade dEle.
Isso foi uma das coisas mais bonitas do livro para mim.
A fé não está ali como enfeite. Deus participa da história o tempo inteiro, não necessariamente com grandes discursos ou pregações, mas nas decisões, no amadurecimento, nos relacionamentos, no perdão, na forma como Alissa começa a perceber o próprio valor. Eu gostei muito também de como a história mostra que nem todo mundo que se diz cristão vive de fato como cristão. E, em contraste, a família Belmonte foi um exemplo lindo de fé vivida na prática.
A avó do Theo, inclusive, merece um comentário à parte. Que mulher maravilhosa. Que exemplo de cristã. É aquele tipo de personagem que não precisa fazer grandes discursos para mostrar quem é.
E agora, obviamente, precisamos falar dele.
Theo.
Sim, eu amo Theo.
Theo é fofo, gentil, dedicado, paciente e cristão até o último fio de cabelo. Não é cristão só porque frequenta igreja ou porque fala de Deus de vez em quando. A fé aparece na maneira como ele trata as pessoas, na forma como ama, na paciência que tem com Alissa e na forma como escolhe viver os próprios princípios.
E foi justamente isso que fez o romance funcionar tão bem para mim, mesmo sem ter um beijo sequer.
Alissa passa boa parte da história tratando Theo de uma forma bem mais fria do que ele merece, e confesso que às vezes eu ficava pensando: “menina, você tem noção de quem está na sua frente?”. Mas eu entendo o processo dela. Ela vinha de um relacionamento completamente diferente, muito mais baseado em impulso, atração e falta de limites, então achei bonito que a autora construísse o relacionamento com Theo de outra forma.
Primeiro amizade. Depois confiança. Cumplicidade. Admiração. Segurança.
Era um relacionamento que precisava parecer diferente, porque Alissa também estava se tornando uma pessoa diferente.
E, por isso, eu consigo entender perfeitamente a escolha de não colocar beijo. A pureza ali não parece uma regra artificial colocada no livro para provar que ele é cristão. Ela faz parte do significado daquela relação. O amor com Theo não repete o que ela viveu com Eric.
Dito isso...
Eu esperei um beijinho até o casamento.
Nada.
Absolutamente nada.
A autora realmente decidiu testar minha fé também. 😂
Minha principal ressalva com o romance, porém, nem é a ausência de beijo. É que senti falta de acessar um pouco mais cedo o que Alissa sentia por Theo. A escrita da Arlene é muito bonita e trabalha bastante com subtexto, o que eu gosto, mas em alguns momentos achei que coisas demais ficaram implícitas. Passei boa parte do livro pensando: “ela gosta dele ou não?”. Só muito perto do final, lá pelos 80 e tantos por cento, senti que isso começou a ficar realmente claro.
Para mim, foi um pouco tarde.
Eu não precisava que Alissa ficasse suspirando por ele desde a metade do livro, mas gostaria de perceber melhor o conflito interno dela, aquela sensação de começar a enxergar Theo de um jeito diferente e não saber o que fazer com isso.
Ainda assim, o desenvolvimento dos dois é tão bonito que eu não fiquei realmente frustrada com o romance. Eles se conhecem, criam vínculo, aprendem a confiar um no outro e fazem sentido juntos. Quando você acredita no casal, nem sempre precisa de grandes gestos para comprar a história.
E acho que isso diz muito sobre o livro como um todo.
A Música das Nuvens fala de família, propósito, perdão, fé, princípios e sobre aprender a esperar em Deus. Fala também sobre se valorizar, sobre reconhecer quando estamos aceitando menos do que deveríamos e sobre entender que Deus nos vê de uma forma muito maior do que muitas vezes conseguimos enxergar a nós mesmos.
O que mais me tocou foi terminar a leitura querendo ser uma pessoa melhor. Uma irmã melhor, uma filha melhor, uma esposa melhor, uma cristã melhor.
Esse é o tipo de coisa que eu procuro em uma ficção cristã.
Não quero apenas terminar um livro pensando “que casal fofo”. Quero fechar o Kindle e continuar pensando na história, nas escolhas dos personagens, em Deus e em como aquilo conversa com a minha própria vida.
E foi exatamente isso que A Música das Nuvens fez comigo.
Se tivesse um pouco mais de romance e um pouco mais de clareza nos sentimentos de Alissa por Theo, provavelmente teria sido meu primeiro 10.
Mas ficou em 9,5/10.
E, ainda assim, foi o melhor romance cristão que eu tinha lido até aquele momento.
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