Círculos não são infinitos — Vitória Souza
Uma história linda sobre casamento, autossabotagem, permanência e graça, com uma escrita poética, um casal que convence de verdade e personagens que continuam com você depois do fim.

Nota: 10/10
Fazia tempo que eu não terminava um livro com tanta vontade de abraçar os personagens e dizer: “fica mais um pouquinho”.
Círculos não são infinitos foi uma surpresa muito bonita para mim. Um livro curto, mas que conseguiu dizer mais sobre casamento, medo, permanência, autossabotagem, família e fé do que muito livro de quatrocentas páginas consegue dizer. Eu terminei a leitura chorando, pensando na vida, no meu casamento, em mim mesma e, principalmente, em como Deus permanece mesmo quando a gente está tentando fugir de tudo.
Maeve me assustou um pouco de tão parecida comigo.
Ela é intensa, impulsiva, defensiva, pensa demais, se sobrecarrega fácil, se cansa, enjoa, reage antes de respirar e se autossabota o tempo inteiro. Inclusive no casamento. E o mais doloroso é perceber que ela não faz isso porque não ama Will. Muito pelo contrário. Ela ama tanto que o medo de perder faz com que tente ir embora antes de ser abandonada.
Isso me pegou num lugar muito pessoal.
Eu também sou aquela pessoa que, numa briga, às vezes pensa “então talvez seja melhor terminar logo antes que tudo piore”. E meu marido é o oposto. Ele é tranquilo, paciente e firme. Mesmo quando eu estou no auge da emoção, ele não transforma uma crise em fim do mundo.
Por isso foi impossível não olhar para Will e pensar no meu marido.
Will ama Maeve com uma constância que emociona. Ele não é perfeito, mas permanece. Tem paciência, carinho, gentileza e uma disposição muito bonita de continuar tentando. E talvez o que mais me tocou tenha sido justamente perceber que o livro não transforma esse amor em solução mágica.
Will ama Maeve, mas ele não pode salvá-la dela mesma.
Esse é um dos pontos mais bonitos da história.
Maeve começa a perceber seus padrões, entende que está presa neles e sofre porque sabe que machuca a si mesma e as pessoas que ama. Mas perceber não significa automaticamente conseguir mudar. E é justamente aí que entra Jesus.
Não como um elemento decorativo.
Não como um detalhe colocado no final para transformar o livro em “ficção cristã”.
Mas como a única presença capaz de alcançar um lugar que nem o amor humano consegue tocar.
Achei muito bonito que a transformação dela não aconteça “por Will”. Ela não deixa de se autossabotar porque finalmente percebe que o marido é maravilhoso. Ela já sabia que o amava. O problema era mais profundo.
Ela precisava aprender a permanecer.
E precisava descobrir Quem sempre permaneceu com ela.
Esse detalhe me destruiu de um jeito muito bonito.
A presença de Deus só ganha força mais perto do final, e normalmente isso poderia me incomodar. Mas aqui funcionou porque tudo estava caminhando para aquele ponto. Maeve precisava chegar ao limite da própria capacidade de controlar, fugir e se proteger para então perceber que não conseguiria se curar sozinha.
E o fato de Will também já estar frequentando a igreja tornou tudo ainda mais bonito, porque mostra que Deus estava trabalhando nos dois de formas diferentes.
Outra coisa que eu amei foi a escrita da Vitória Souza.
Achei sublime.
Existe uma delicadeza quase filosófica na forma como ela trabalha a ideia dos círculos, do movimento, da repetição e do medo de permanecer. Não é um conceito bonito jogado na história só para soar profundo. Ele está em tudo. Na Maeve, no casamento, nas escolhas, no medo, na forma como ela vive.
Quando o livro termina, você entende por que o título é aquele.
E isso, para mim, é uma das melhores sensações possíveis como leitora.
Também preciso falar da playlist.
A autora colocou trechos de músicas no início dos capítulos, todas de uma playlist que ela ouvia enquanto pensava na história, e isso deixou a leitura ainda mais especial para mim. Eu amo quando música e literatura se encontram desse jeito, porque parece que a autora está entregando um pedacinho do processo criativo junto com o livro.
E teve uma música específica que ficou completamente ligada a Maeve e Will na minha cabeça: “Parte”, de Tiago Arrais.
Para mim, essa música virou uma declaração de amor da Maeve para o Will.
Não vou conseguir ouvir de novo sem pensar nos dois.
É aquele tipo de detalhe pequeno que transforma uma história em memória.
O romance também me convenceu completamente. Não porque seja cheio de grandes cenas românticas, mas porque o amor entre eles é óbvio. Está na forma como Will permanece, na forma como Maeve tem medo justamente porque sente demais, nas pequenas escolhas e na dor de imaginar perder aquilo que construíram.
A história não precisa provar o tempo inteiro que eles se amam.
Você simplesmente sabe.
E isso talvez seja o que mais me fez sentir falta deles depois.
Eu terminaria outro livro inteiro sobre Maeve e Will sem precisar de grande plot nenhum. Só queria acompanhar mais um pouco da vida deles, porque comecei a me importar com quem eles são e com quem ainda vão se tornar.
Esse é um dos maiores elogios que consigo fazer a um livro.
Porque, no fim, Círculos não são infinitos não foi só uma história sobre casamento em crise. Foi uma história sobre medo, permanência, graça, autossabotagem e sobre como Deus consegue quebrar ciclos que sozinhos não conseguimos quebrar.
Eu fechei o Kindle sentindo que tinha lido uma terapia em forma de livro.
E também sentindo gratidão.
Gratidão pelo amor que permanece. Pelas pessoas que Deus coloca na nossa vida. Pela chance de amadurecer. Pela possibilidade de recomeçar.
Nota: 10/10.
Sem ressalvas para a proposta do livro.
Só saudade.
Comunidade
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